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"Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga." Denis Diderot

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

É primavera...



A FLORZINHA

Eu fui pelo mato
Assim seria mais perto chegar
E evitar tanto arrodeio
...
E no meio daquele mato
Encontro uma florzinha amarela
De tanto medo.


Pensei leva-la pra casa
Não deixa-la ali, sozinha
Mas ela se agarrava no mato
Desconcertada, me pedia
Pra ficar com ela
E não ir embora


Eu que nunca entendi essas coisas
Menti que voltaria
Fui pensar numa ação de resgate
Voltei no outro dia, era tarde
A flor já não existia


(Eliel Silva - 20.09.2017)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Na rua em que eu morava




Acabei de passar lá na rua em que eu morava, coisa que faço vez em quando, pois não dá para deixar tudo aquilo para trás. Excepcionalmente hoje, não me senti bem com o que presenciei: não mais encontrei aquela casa em frente a dos meus saudosos pais. Sim, estava faltando o lar de “Pai Minga” e dona “Santa”, do mestre Joaquim e dona Teresina. Aquela casa que me acolheu tantas vezes, para uma partida de futebol com caixas de fósforo, onde fazíamos do piso da sala o nosso estádio. Partidas memoráveis foram realizadas ali com os anfitriões Bão (que mais tarde veio a ser meu compadre), Doca e Jangada, além, claro, dos tantos outros meninos de então, vizinhos e amigos. Fiquei chocado e ao mesmo tempo com raiva daquela máquina que, pouco a pouco, demolia paredes e ia retirando os escombros e colocando numa caçamba, apagando assim muito das nossas lembranças. Nem mais sinal do forno de lenha, onde o casal e seus filhos assavam as deliciosas raivas. E aquela janela de frente, que me permitia apreciar, lá da minha calçada, aqueles velhinhos simpáticos numa cumplicidade de dar inveja: Pai Minga e Mãe Santa. É bem certo que faz muito tempo que nem moro mais naquela rua, mas nas vezes que passo ali, um filme volta a ser exibido na minha mente. Agora vou ter que puxar mais ainda pela memória para “rever” a nossa gente, já que parte do cenário foi retirada. É bem verdade que devemos estar abertos ao progresso, mas isso às vezes é um processo que dói demais. (Eliel Silva - 17.09.2017)

sábado, 12 de agosto de 2017

Agosto, apesar de você...



EM TEMPO DE GUERRA E PAZ

Eu quis seguir contigo esse caminho
Mesmo na incerteza, adentrando a contramão.
E vez em quando sendo forçados a fazer
...
Ultrapassagens em nosso coração.


Mas há um Norte em teu olhar adentro
Busco uma estrela, e tenho vagalumes.
Nada me importa, se comigo vens.
De paz e luz são esses teus costumes.


A vida me levou à tirania
Hoje sou só metade do que fui
Mas eis que você chega de mansinho


E traz esse artefato de poeta
Dos nossos planos faz essa alquimia
E partimos nessa viagem incerta.


(Eliel Silva, 07.08.2017)


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Curtas

Eis que a orquestra executa um número musical tenebroso, não necessariamente como está escrito na partitura, mas sob pressão do seu regente. (Eliel Silva - 20.06.2017)

sábado, 17 de junho de 2017

Crônica de junho


MARIA FLOR

Maria cultivava flores em seu jardim. Na vida cultivava amigos. Ela tinha vindo de uma terra árida. Na infância quase não brincou, e chegou a passar fome. Mas tinha fé, como todo bom sertanejo, e logo passou a frequentar a igreja assiduamente. Mais tarde, se casou e teve cinco filhos. Três deles a morte lhe poupou. E os criou, junto a seu esposo, homem bom, trabalhador e honesto. Ele nunca aprendeu a ler e a escrever. Ela foi um pouco além. Viveram muitos anos. Depois que ele se foi, e com os filhos já criados, um deles meio crente e meio ateu, Maria adoeceu. Na sua (des)confiança, o filho mais novo ia no quintal e se ajoelhava. Dizia coisas para o espaço. Maria Flor passou a enxergar a vida de uma forma confusa. Muitas coisas se misturavam em sua mente. Passado, presente. Parecia resignada, e assim ela não aparentava sofrer. Mas foi tudo muito rápido. Em apenas quinze dias, a "Madona de Cedro" definhou. Amigos fizeram correntes de oração, políticos fizeram média; seus filhos, penitência. Nada a conteve. Nada a fez ficar aqui. Em silêncio profundo Maria se foi... Ela que fazia tanto, por tanta gente. Ela que acolhia bons e maus, vai-se sem companhia. Mas nem percebia. E nessa peça que a vida lhe pregou, Maria encerrou o seu ato. Hoje ela descansa em paz na morada final. No seu túmulo, que ela mesma mandou construir, apareceu uma fenda. Nela um arbusto brotou, e dele uma flor. (Eliel Silva – junho de 2017)